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Radar do tempo


“Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (João 12.24.)

Conheço a história de um ilustre homem de Deus, pastor no Brasil, que viveu um momento muito difícil em seu ministério; visivelmente os cultos em sua igreja eram muito ruins, os ministérios congregacionais não tinham liga, as pessoas não conectavam entre si, os relacionamentos não se firmavam. Naquela ocasião as pessoas começaram a sair da igreja, procuravam aquele pastor e diziam: “pastor gostamos muito de você, sua pessoa é agradável e nos faz bem sua amizade, mas não suportamos mais congregar nessa igreja, encontramos outro ministério que nos atende melhor e queremos sua benção para partir”; esse pastor, com uma sabia postura, jamais negou abençoar a qualquer um daqueles irmãos, ou os abençoou com o coração camuflado, com sinceridade sempre despedia em paz suas ovelhas. Em um determinado dia, após vários irmãos terem partido, um valoroso obreiro o procurou para o mesmo fim dos anteriores, informar que estava saindo. Esse nobre pastor, com o coração já desgastado, perguntou a Deus qual era seu erro, não achando resposta, disse aquele obreiro: “meu irmão, estou tão desgastado te confesso que se eu não fosse o pastor desta igreja também iria embora”, e mais uma vez despediu em paz aquele irmão. Como acabou a história desse nobre pastor? Saberemos ao fim deste artigo.

Uma das maiores avenidas para sabedoria é o discernimento, Salomão, o grande rei disse: “sábio é aquele que discerne o tempo e o modo de todas as coisas acontecerem”. Somos contemporâneos em uma época marcada pela busca insana de resultados, somos doutrinados desde crianças a chegar com velocidade aos objetivos, não só os nossos, mas também com os que a vida, a sociedade, as pessoas, os sistemas, nos impõem. Somos a geração “comida rápida”, gostamos da carne macia, porém detestamos o som da pressão na panela, detestamos ainda mais o tempo necessário para o bom cozimento dos alimentos, gostamos de microondas modernos, que acelerem os processos de preparação nos contextos em que estamos inseridos, aqui deste lado do equador a vida é assim. Velocidade, resultados, metas, fins que justificam os meios, e como vários outros aspectos de nossa era, este aspecto do triunfo a qualquer preço e sob qualquer padrão invadiu nossas igrejas.

Inúmeras são as estratégias apresentadas, buscando um objetivo central, CRESCIMENTO. Neófitos assumem sob seus ombros um peso espiritual que não estão prontos para carregar, orientados por líderes fascinados pela ilusão do poder e nesse ínterim tem se perdido, perdendo sobretudo sua comunhão primária com o Maravilhoso Criador do Universo. Tudo isso é muito perigoso.

É tempo de ligarmos nosso radar do tempo, detectar com precisão o modo e o tempo das circunstâncias que estamos vivendo. Como igreja brasileira precisamos parar com essa ambiciosa busca pelo crescimento, circunstância essa que se tornou um vício em nosso abençoado Brasil, e olharmos para a essência do evangelho, abandonando um pouco os benefícios das massas facilmente manipuláveis, hipnotizados pelo bel prazer.

A Palavra de Deus é muito clara, existe tempo para todo propósito debaixo do sol, existe um tempo certo para todas as coisas, sempre terão aqueles que estão no tempo de abraçar, e aqueles que estão no tempo de afastar-se de abraçar, aqueles que estão no tempo de chorar e aqueles que estão no tempo de rir, aqueles que estão no tempo de ajuntar e aqueles que estão no tempo de espalhar. Trafegando paralelamente pelos corredores dos palácios congregacionais no Reino de Deus, o que precisamos é discernir qual é o nosso tempo, a maturidade inevitavelmente passa pelo caminho da perda, sobretudo perder para Deus. Sim perder para Deus. A sequencia do versículo lido no início deste artigo é: “Quem ama a sua vida perde-a, mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna.” (João 12.25.) Precisamos aprender a lição do grão de trigo, a lição da perda que em supra-sumo é: Não se pode ressuscitar sem antes morrer. Desejamos avidamente a glória do domingo de ressurreição, mas não queremos sobre nenhum aspecto o sabor amargo do fel das três horas da tarde na sexta feira no gólgota. Amadurecer exige tempo, trabalho, perdas, em fim, sangue, suor e muitas lágrimas.

Jamais triunfaremos verdadeiramente, sem antes passarmos no caminho pontuado pelo pai celestial para que andemos. TRIUNFALISMO é uma perigosa obsessão da alma que tem nos afligido no século XXI. Igreja brasileira, abra os olhos do coração e grite a alto e bom som em plenos pulmões, “SENHOR precisamos te ver! Precisamos ver o caminho que o Senhor tem pra nós e não queremos mais ver o caminho que nós temos para o Senhor”, nos quebrantar com um coração contrito, pedir perdão a Deus, pois um coração quebrantado e contrito Ele jamais desprezará.

Em fim o fim da historia do nobre pastor citado na introdução deste artigo. Alguns anos após a fase difícil que ele viveu, onde muitos queridos foram embora, a igreja era a mais bem falada em sua cidade na qual eu tenho alguns amigos verdadeiros. No tempo de hoje, a igreja possui uma membresia fiel e ativa, com mais de cinco mil pessoas, todos os ministérios da casa funcionam, fluem como águas cristalinas incansáveis, que descem sobre as corredeiras de um ribeirão saudável. Os pequenos grupos bem equilibrados e crescentes como o exército descrito em Joel capítulo dois, com soldados correndo nos campos de batalha em fileiras bem arregimentados, um do lado do outro, e ninguém aperta seu irmão, os ministérios congregacionais, admiráveis, bem organizados e sem nenhuma disputa de poder. É uma igreja onde não se há dúvidas da presença gloriosa de Deus no governo de tudo.

E o nobre pastor ainda não achou resposta para sua pergunta, onde foi que eu errei? Porque ele não errou, apenas estava como um grão de trigo caído na terra, e no momento da severa decisão, seguiu o caminho certo, pois se não morresse, ficaria ele só. Mas como morreu, foi partido, perdeu para Deus, gerou e tem gerado muitos frutos, é assim que nós vencemos, igreja brasileira, deixando que o processo de Deus, não o nosso, flua. Esse é o verdadeiro e essencial triunfo. Por isso oremos todos os dias, pedindo a Deus que tenha misericórdia de nós e nos presenteie com radares bem aferidos para discernimos o tempo e o modo de todas as coisas.

::Pr. Romney Cruz

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